(1958) Carta de Maria Rosa Feliciano ao “Querido” – fragmento de uma separação.

Carta de Maria Rosa Rosado Feliciano ao “Querido”, datada de Lisboa, 1/05/1958; 1 folha, dobrada no meio, 4 p.; cartas encontradas em agosto de 2018 na Feira da ladra de Lisboa.
Todos os documentos recolhidos à volta do divórcio de Maria Rosado Feliciano encontram-se nesta página: (1957-1958) Maria Rosado Feliciano: fragmentos de uma separação.

 

 

 

 

 

 

 

Lx 1-5-958

 

Querido:

        Depois de telefonar quatro vezes para a pensão e não te encontrar, escrevo-te.
Estás zangado comigo? Julgas-te com razão? Meu amor querido, tu não vias que eu estava tão doente, sob a acção do éter, completamente desorientada e, tu querido, sem carinho nenhum comigo, pelo contrário parecendo que fazias um grande frete em me aturares um bocadinho só. Não queria que te fosses embora, meu amor, queria a tua companhia a tua meiguice, que há tanto tempo não tenho! Querido! Compreende-me. Ao menos, que sejas justo. Tenho sofrido muito, fisica e moralmente. Tenho-te feito todas as vontades, mesmo aquelas em que não concordo muito, só pelo prazer de tas fazer. Deixei o emprego, só para ficares satisfeito, meu amor, e tu és tão injusto para quem gosta tanto de ti e não pensa noutra coisa que não seja fazer-te feliz. Meu querido amor, vê bem a situação. Eu sei, querido, que tu sabes que eu
 vergo sempre… sou tua amor!! E só isto, afinal. Já não gostas de mim? Responde francamente. Quero franqueza acima de tudo. Quero falar contigo depressa. Vim hoje a Lisboa tratar de vários assuntos. Não consegui encontrar-te. Estou cheia de pena e saudades.
Porque será que gostar faz sofrer tanto? Querido, não calculas como estou nervosa e desesperada.
Não fôste hoje almoçar à pensão, não sei, portanto, como falar contigo. Lembra-te que és a razão da minha vida, sem ti, nada me pode interessar. Quero falar contigo depressa, muito depressa. Quero que me digas frente a frente o que sentes ultimamente por mim.
Lembras-te o que te disse a última vez que te beijei? Vê se consegues lembrar-te, e, talvez vejas quanto sou tua.
Não gosto de escrever para aí, mas não sabia para onde devia fazê-lo.
Responde-me depressa a esta carta. Devo vir a Lx, dentro de poucos dias. Talvez amanhã ou depois. Tenho de resolver a vida de qualquer maneira, não posso ficar de braços crusados porque depressa o dinheiro se acaba e, infelizmente, não se pode viver sem ele.
Sempre tua  Maria Rosa.

P.S. Não estejas zangado comigo, meu amor, porque não tens razão. A tua querida [?], está arrependida por te ter deixado ir embora sem ela.

Manuscritos